Não sou influencer — tenho mais perseguidores do que seguidores
Não sou influencer — tenho mais perseguidores do que seguidores
Por Alanna Souto Cardoso Tupinambá
Comunicar não é disputar visibilidade — é sustentar posição, memória e território, mesmo sob vigilância.
Eu não estou atrás de seguidores.
Nem de milhares, nem de centenas de milhares.
Não estou em disputa por números —
nem por aplausos fáceis,
nem por algoritmos satisfeitos.
Minhas redes existem,
inclusive a minha própria,
mas eu mesma quase não posto.
Não vejo sentido em expor o cotidiano
como se a vida fosse vitrine.
A vida, para mim,
é feita de responsabilidades,
de encontros,
de compromissos com pessoas reais.
Não sou jornalista.
E a minha forma de escrever
não pretende alcançar todas e todos.
Mas alcança.
Alcança quem precisa.
Alcança quem escuta.
Alcança quem lê com o corpo inteiro.
Alcança nichos,
tribos sociais,
povos, territórios,
grupos étnicos que reconhecem
na palavra algo além do texto.
Muitas vezes,
há mais visualizações do que curtidas.
E isso diz muito.
Diz sobre quem escreve.
Diz sobre quem lê em silêncio.
Diz sobre quem observa,
mesmo sem se expor.
Eu sou uma liderança indígena
em contextos vulnerabilizados.
Sou memória tradicional indígena
em território urbano.
Carrego no corpo
o que a cidade tentou apagar.
Não sou popstar.
Não sou influencer.
E não vivo da estética da exposição.
Não tenho tempo- espaço para anunciar ou denunciar na grande mídia sensacionalista da lacração —
e, mais que isso,
não tenho interesse
em performar uma vida editada.
Quando outras pessoas têm mais seguidores,
não me vejo em disputa.
Porque eu não estou no mercado da atenção.
Estou no campo da comunicação
como prática de responsabilidade.
Comunicar, para mim,
é compromisso.
E nem sempre compromisso
vem acompanhado de popularidade.
Aliás, quase nunca.
A figura popstar
raramente enfrenta o peso da perseguição.
Raramente sofre o incômodo
de quem incomoda.
Mas quem se posiciona,
quem fala,
quem não se curva —
essa sim
conhece o “preço”.
Eu não me abaixo com facilidade.
E é justamente por isso
que enfrento pessoas abusivas,
ou aquelas que se calam
diante do abuso.
Há quem confunda visibilidade
com força.
Mas eu sei:
força não está nos números.
Está na permanência.
Na coerência.
Na coragem de continuar
mesmo quando o retorno
não vem em forma de curtida.
Eu não sou influencer.
Tenho mais perseguidores
do que seguidores.
E ainda assim,
eu sigo.
Porque território
não é só terra:
é corpo,
é história,
é memória,
é permanência.
E eu permaneço.
Mesmo na cidade.
Mesmo sob vigilância.
Mesmo diante das tentativas
de apagamento.
Eu não sou influencer.
Sou território.
E território
não se mede em seguidores —
se defende com memórias comunitárias reais,
não inventadas para atender à classe média
sem vivência de tradicionalidade,
que insiste em usurpar identidades
em versões monetarizadas.
Muitos dos que acumulam seguidores
não sofrem perseguição.
Não são eliminados arbitrariamente.
Até mesmo homens agressivos,
que cometem violência contra mulheres,
seguem sendo bem-quistos —
e denúncias públicas, por vezes, são relativizadas,
com danos minimizados
em nome de uma imagem de “homem de bem”,
absolvido nos rituais de conveniência.
Há quem ensaie discursos frágeis
para se impor em espaços de poder
que desconhecem —
ou ignoram —
as realidades da cidade invisível
e dos territórios historicamente silenciados.
Há muito,
já perderam a mão da realidade.