Vida Comunitária & o Sagrado Não Se Alugam
A terapeuta ocupacional do CAPS da Cabocâ
riquíssima, branca,
cocar na cabeça como quem veste coroa monárquica,
plena — braço curvado na cintura,
pose de quem aprendeu o gesto antes do sentido.
Pedreira.
No prédio chique,
onde o elevador nunca para no térreo da vida real.
Ela acende o tauari
como quem acende um cenário.
A fumaça sobe limpa,
mas o gesto é pesado.
Não é reza.
É performance.
De repente, a visão atravessa:
o moleque dela,
sentado na frente de um computador,
falando com alguém “invisível” —
a mão invisível, facilitadora,
da esquerda ou da direita,
sempre no alto dos prédios chiques,
olhando de cima o ônibus coletivo que passa.
Olho fixo.
Dedo ágil.
Treinado cedo para vigiar.
E ela ali —
vestido brilhoso,
corpo gordinho embalado em brilho,
cocar de “caboclo” de umbanda comprado pronto,
tauari na mão,
e no crachá:
técnica de terapia ocupacional do CAPS.
A cena não fecha.
Nunca fechou.
É como se o prédio inteiro fosse um delírio bem pago,
com ar-condicionado,
certificação institucional
e verniz de cuidado.
A psicopatia não para de alucinar —
não porque vê coisas,
mas porque encena.
Repete.
Ocupa em botar seu moleque pra perseguir,
coloniza até o sagrado
e chama isso de cuidado.
E eu, da calçada da Pedreira,
assisto.
Sem cocar.
Sem exibir o que tenho naturalmente,
com pertencimento comprovado e publicado,
longe do espetáculo institucional
da vida comunitária privatizada.
Porque identidade não é adereço,
nem política pública terceirizada:
vida comunitária e o sagrado não se alugam.
Tem valores impagáveis.
Nem tudo tem preço.
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01 de fevereiro de 2026
Alanna Souto Cardoso Tupinambá
Região Metropolitana de Belém – PA