Vida Comunitária & o Sagrado Não Se Alugam

01/02/2026 09:05
 
 

A terapeuta ocupacional do CAPS da Cabocâ

riquíssima, branca,

cocar na cabeça como quem veste coroa monárquica,

plena — braço curvado na cintura,

pose de quem aprendeu o gesto antes do sentido.

 

Pedreira.

No prédio chique,

onde o elevador nunca para no térreo da vida real.

 

Ela acende o tauari

como quem acende um cenário.

A fumaça sobe limpa,

mas o gesto é pesado.

Não é reza.

É performance.

 

De repente, a visão atravessa:

o moleque dela,

sentado na frente de um computador,

falando com alguém “invisível” —

a mão invisível, facilitadora,

da esquerda ou da direita,

sempre no alto dos prédios chiques,

olhando de cima o ônibus coletivo que passa.

 

Olho fixo.

Dedo ágil.

Treinado cedo para vigiar.

 

E ela ali —

vestido brilhoso,

corpo gordinho embalado em brilho,

cocar de “caboclo” de umbanda comprado pronto,

tauari na mão,

e no crachá:

técnica de terapia ocupacional do CAPS.

 

A cena não fecha.

Nunca fechou.

 

É como se o prédio inteiro fosse um delírio bem pago,

com ar-condicionado,

certificação institucional

e verniz de cuidado.

 

A psicopatia não para de alucinar —

não porque vê coisas,

mas porque encena.

Repete.

Ocupa em botar seu moleque pra perseguir,

coloniza até o sagrado

e chama isso de cuidado.

 

E eu, da calçada da Pedreira,

assisto.

 

Sem cocar.

Sem exibir o que tenho naturalmente,

com pertencimento comprovado e publicado,

longe do espetáculo institucional

da vida comunitária privatizada.

 

Porque identidade não é adereço,

nem política pública terceirizada:

vida comunitária e o sagrado não se alugam.

Tem valores impagáveis.

Nem tudo tem preço.

 

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01 de fevereiro de 2026

Alanna Souto Cardoso Tupinambá

Região Metropolitana de Belém – PA